terça-feira, 19 de outubro de 2010

Requiem por mim

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez da natureza consumida,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido de alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vivi
Contra as leis do destino.
E o destino nãoo quis
Que eu cumprisse como porfiei.
E caisse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

Miguel Torga, Diario XVI, Coimbra, 10 de dezembro de 1993
Parque dos Poetas

Estátua Falsa

Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram,
Na minh'alma desceu veladamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.

Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer me arrepio de medo!

Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mas;
Sou templo prestes a ruir em deus,
Estátua falsa ainda erquida ao ar...

Mário de Sá-Carneiro, Poemas Completos
Parque dos Poetas